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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Ding Dong!


A morte de Margaret Thatcher mostra mais uma vez como os media (com notáveis excepções) manipulam, branqueiam e tentam reescrever a história como lhes convém. Lá porque a senhora morreu não quer dizer que ela fosse uma estadista a quem se deva respeito ou idolatria. Felizmente, a tecnologia de hoje permite que muitas vozes se façam ouvir e essas vozes são de gente que não esquece. Os festejos em várias cidades, as campanhas online ou apenas os comentários num qualquer site são provas de que, de facto, há coisas que o tempo não apaga. Não é humano falar mal de alguém que acaba de morrer? Ela também não tinha um pingo de humanidade. Estamos a falar da pessoa que destruiu a indústria inglesa e declarou guerra à working class, que desestruturou famílias e comunidades inteiras, que lançou gente para o desemprego e que lhes disse para se desenvencilharem sozinhos sem ajuda do Estado, de alguém que literalmente tirou o leite às crianças. Da pessoa que oficialmente declarou Mandela um terrorista, que apoiou o apartheid, que foi amiga de Pinochet e Mugabe. Estamos a falar da pessoa que ajudou a encobrir Hillsborough e que ordenou a morte de 300 marinheiros argentinos. E ainda não mencionei Bobby Sands.
Em muitas terras, sobretudo no norte de Inglaterra, ainda se sofrem as consequências do seu governo e da guerra de classes que alimentou. Um governo que beneficiava os ricos, enquanto os pobres mereciam sofrer apenas por serem pobres. Se os britânicos querem celebrar nas ruas, deixem-nos. É de mau gosto? Sim mas, para ser sincera, não quero saber.
Por fim, quero só dizer que agradeço muito ao Guardian por ter sido um dos poucos jornais que manteve a imparcialidade nisto tudo e que nos deu uma excelente cobertura dos acontecimentos nos últimos dias. Tem sido uma leitura muito interessante.
Deixo aqui um vídeo que já tem uns anos, com o comediante escocês Frankie Boyle no programa Mock The Week a deixar bem claro, na altura, o que achava de um potencial funeral de Margaret Thatcher. É hilariante.



 
Maria Braun

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Resgatados



A epígrafe de Resgatados, Os bastidores da ajuda financeira a Portugal, - «Pois Brutus era um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados» - põe imediatamente o mote central do livro: alta traição. Em termos romanescos é este o enredo. Quem é César? José Sócrates (desconfio que o senhor ia gostar desta imagem). Quem é Brutus? Teixeira dos Santos. Ao mesmo tempo, a linha de Shakespeare não deixa de remeter para os outros homens honrados e para o seu eventual carácter. Cabe ao leitor pesar, decidir e formar o seu juízo.
A descrição do processo que levou ao pedido de ajuda externa da República é feita de forma objectiva ao longo de catorze capítulos, organizados de forma cronológica e que se concentram essencialmente entre Janeiro de 2011 e Maio de 2011. Apesar da objectividade, o registo não é seco e frio. É fácil detectar uma certa dramatização que está ao serviço do interesse do leitor e da intensidade da leitura. Resgatados  apela à nossa curiosidade em saber como os políticos se comportam nos seus gabinetes - o que é que eles dizem. Em nenhum momento os autores formam um juízo de valor sobre os intervenientes. Ainda assim são dadas algumas descrições do seu carácter que permitem ao leitor construir as suas impressões. 

Com base nessas descrições podemos dizer que Sócrates é temperamental, cortante, obstinado, trabalhador, idealista, político. Teixeira dos Santos é reservado, racional, ponderado, diligente, técnico. Nestes retratos, a linha substancial que os desenha é precisamente esta oposição entre o político e o técnico, entre o homem que devora biografias de Napoleão e o homem que devora relatórios. Sublinhe-se, por exemplo, a seguinte passagem (p.69): "Frequentemente repetia uma frase que servia de escudo sempre que Teixeira dos Santos dizia que não era possível resistir. «É possível e nós vamos resistir, porque isto é um governo socialista.»" O assunto do livro é, portanto, a resistência do primeiro-ministro em pedir ajuda externa.

Fosse isto uma encenação, estaria por trás do palco  uma linha com vontade própria e pouco racional que subiria constantemente: a evolução das taxas de juro da dívida soberana. Ninguém lhe pode escapar: os destinos estão traçados, assim como o das pessoas, que não têm qualquer espaço nas movimentações políticas. Os homens honrados põem o interesse nacional em cima da mesa quando este serve o seu interesse político. Não há aqui nenhuma novidade. No entanto, uma vez que o leitor decidiu confiar nos autores do livro, depois de ter lido o prefácio, não poderá escamotear o esforço descrito de Sócrates em evitar a austeridade e de como esta ia ao arrepio das suas posições como político. De acordo com o relato, Sócrates aceitou as medidas de austeridade mais graves quando lhe disseram que não existia outra saída dada a situação. Estou a defender Sócrates? Estou a procurar ser intelectualmente honesto com a informação que li no livro. O registo apresenta um homem frenético, a fazer de tudo para conseguir dominar a situação. Creio que o carácter vaidoso de Sócrates ficaria rendido ao supremo prazer da ideia de uma vitória difícil e eficaz. Tivesse ele alcançado os seus objectivos e caso fosse sucedido na aplicação do PEC IV, o estado da sua graça, potenciado por ele mesmo, teria sido insuportável. Mas não aconteceu e nunca saberemos o que aconteceria se o PEC IV tivesse sido aprovado. Provavelmente teria corrido mal. A oposição estava feroz e Sócrates estava sozinho. E se é certo que acalmou a Europa com o dito pacote de austeridade, a verdade é que era uma posição em que o primeiro-ministro não podia confiar totalmente. Por outro lado, a linha da dívida não descansava. 

Das relações com a oposição, salienta-se a dificuldade da relação de Sócrates com Manuela Ferreira Leite e com Passos Coelho. Com Ferreira Leite não era nenhuma e com Coelho, o "seu parceiro de tango" (não se pode dizer que Sócrates não tem sentido de humor) como o descreveu no primeiro encontro,  depressa se desfez. Sócrates tinha uma confiança tal em si e na gravidade do momento que se permitia fazer afirmações públicas que não estavam de acordo com o que foi dito em privado. Talvez achasse que o sensato era que as pequenas falhas que cometia (e que serviriam para a sua sobrevivência) seriam perdoadas, dada a gravidade da situação do país. Passos Coelho, um homem sério - fiel com a sua palavra - ,não gostou de ver o primeiro-ministro dizer uma coisa que ele não disse e as coisas ficaram azedas, chegando a contornos de hostilidade declarada e de silêncio embrutecido. 

Como se sabe, e ao contrário do que disse, Passos foi a S. Bento na noite anterior ao anúncio do PEC IV. No dia seguinte, disse que não aprovaria o pacote e foi o começo do fim. Miguel Portas definiu Passos na perfeição: um farsolas. A Europa não achou piada nenhuma às acções reflectidas de Passos. Segundo as descrições é um homem cuja reflexão é introvertida e que age de forma firme quando chega a uma solução. No livro, dá sinais de exteriorização quando telefona à primeira pessoa quando sabe dos acontecimentos: «Miguel!» E quando foi a Bruxelas pela primeira vez enfrentou o desdém de Merkel: «So, you are the nice guy from Portugal» (p.173). Passos fez aquilo que nenhuma análise honesta pode ultrapassar: fez cair o governo em nome da austeridade para ir imediatamente a Bruxelas dizer que assumia inteiramente todos os compromissos e ainda mais. Tal comportamento talvez fizesse Alcibíades corar de vergonha. Os resultados estão à vista e parecem ser “gregos“.

Ainda assim, na altura, Sócrates - qual Antígona - não cedeu um milímetro na sua posição. Não. Não queria uma intervenção externa em Portugal. Entretanto, os banqueiros começaram a mover-se e a deixarem clara a sua posição. O cerco fechou-se. A posição era insustentável. Teixeira dos Santos pede a intervenção à revelia de Sócrates. O primeiro-ministro fora traído: «Pelas costas, como um patife» (p.195). As relações são cortadas. São iniciadas as negociações com a troika e o memorando é assinado.

Apesar da imparcialidade, creio que o livro actua no sentido de recuperar Sócrates. Não é difícil simpatizar com ele e, continuando neste tom literário, pode dizer-se que é quase apresentado como um herói vencido: «Naquele sábado, Sócrates estava a curta distância do seu Waterloo. Mas ainda não tinha baixado as armas» (p.150).* E a simpatia aumenta mais quando se olha para o comportamento do PSD, especialmente o de Eduardo Catroga - que mostra bem o seu valor de mercado. Creio que não vale a pena referir a pessoa do presidente da República. O que parece ser certo é que Sócrates estava condenado pela circunstâncias e os portugueses estavam fartos dele e com alguma razão. Não se pode dizer que não tivesse espinha face aos acontecimentos e até mesmo alguma espinha ideológica. Não é um homem risível, constrangedor, que sai destas páginas, mas sim um homem que procurou sobreviver e evitar a intervenção ao máximo, tornando-se obstinado, coisa que em último caso não o ajudou.

 Face a este retrato, podem desvanecer-se algumas das muitas opiniões sobre  o primeiro-ministro ou, pelo menos, olhar para ele com uma luz diferente. É claro que este não é um retrato definitivo e Sócrates despertará sempre um sentimento de desconfiança. Não se pode fazer tábua rasa das suspeitas que pairam sobre si.  Uma coisa é certa. Sócrates não é um homem vulgar, mesmo quando parece ser silly. E merece mais do que um juízo de taxista, pelo menos no que toca ao seu papel como político.

K. Douglas

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Domingo à noite

Desculpem a minha demora em escrever. Terminei, há uns dias atrás, o tal grande e famoso romance russo que estava a ler: Anna Karenina. É inesquecível. Talvez escreva algumas impressões em breve, nomeadamente sobre a sensibilidade apurada de Tolstoi - acreditem: um cintilar no olhar, quase imperceptível, é suficiente para que a vida mude de forma irremediável. Por agora dedico-me a umas notas soltas que me foram surgindo ao longo deste serão de Domingo escuro, frio e deprimente.

A primeira coisa de que gostaria de falar é sobre o acordo ortográfico. Não sou a favor do acordo ortográfico e não o vou utilizar na minha privada. No entanto, se algum dia tiver que escrever um documento público, de carácter oficial, o que seja, então farei uso do acordo. Por outro lado, acompanho a aprendizagem de uma criança e, nessa situação, sigo o acordo - tanto mais que está implementado nos manuais escolares. Isto para dizer que não aplaudo, de modo algum, Vasco Graça Moura. Não creio que se possa imprimir juízos e determinações pessoais na condução de uma instituição que, ainda que de direito privado, está na dependência administrativa do Estado. O presidente é o órgão máximo da fundação e é nomeado pelo ministro da Cultura. Ups, secretário de Estado. Portanto, a deliberação de Graça Moura, para mim, não é mais do que a criação de que um pequeno nicho de poder e que se apresenta incólume, tanto que o secretário de Estado já fez saber que nada poderá fazer quanto à decisão (não?!) e o primeiro-ministro, em resposta a António José Seguro é cabal no esclarecimento: «Queria dizer-lhe que o Governo não tem nenhum esclarecimento a acrescentar sobre esta matéria. O acordo ortográfico entrou em vigor a 1 de janeiro deste ano, assim o confirmam os manuais escolares, assim como todos os atos oficiais, e ele será cumprido.» Bem, porque a aplicação do acordo ortográfico reveste a forma de lei, a decisão de Graça Moura pode levantar algumas questões.Nomeadamente, qual é o espaço de acção dos administradores? Pode alguém que está na alçada da administração do Estado dizer: eu não aplico? Sim? Então, as consequências podem ser extensas.

Disse que este serão é escuro, frio e deprimente. O terceiro adjectivo não deriva necessariamente dos dois primeiros, mas sim da televisão, das notícias. dos comentadores, de Marcelo Rebelo de Sousa, da maneira condescendente com que tratam as pessoas - os "portuguesinhos". Não tive oportunidade (faço aqui um pequeno excurso) de ler na íntegra a entrevista de Judite de Sousa à Pública, mas o que li foi suficiente e grave. A senhora orgulha-se, por assim dizer, de fazer parte de uma narrativa que levou ao pedido de resgate do país. Há muitas coisas que podem ser ditas sobre o assunto e também não se pode ser ingénuo no que diz respeito à interferência da comunicação social na política. Mas julgo que deve ser dita uma coisa. Judite de Sousa chegou à TVI e quis mostrar as suas insígnias de jornalista (não resisto: Manela, vê como eu chego e despacho o Sócrates num instante e tu nunca o conseguiste fazer). Realiza quatro entrevistas a banqueiros que queriam a intervenção externa e assim foi feito, conseguiram (e talvez não houvesse alternativa - deixe-se essa possibilidade em cima da mesa). Qual é o resultado, Judite de Sousa? Que espaço de reflexão levantou? Que movimentos sociais ou de cidadania originou? Nada, de nada. "Apenas" um programa de ajustamento económico e um governo cheio de gente incompetente que está a acabar com o que resta do país. É certo, eu não li a entrevista na íntegra, mas acho que a pergunta é necessária: o que é que ganhou?  O que é que ganhou como jornalista? O que é que se ganhou? E porque é que a comunicação social, na sua generalidade, está num estado de bonomia bovina para com este governo?

Voltando à sensação de depressão dada pela televisão (passava a ferro enquanto a voz de Rebelo de Sousa chegava da sala). É horrível a condescendência com que se trata o português dito comum. É preciso explicar as nomeações e a atribuição de subsídios quando o trabalhador comum ficou sem eles, caso contrário, as pessoas não compreendem. Isto é indecente! Mas o que é que há para compreender? Não há excepções, ponto final. Não há uma massa de gente empobrecida, que vê cortes nas prestações sociais, subsídios, etc., e uma casta para quem os direitos são inalienáveis. Isto é óbvio, não precisa de ser dito. 

Por fim, finalmente vi Sangue do meu Sangue de João Canijo. Devo dizer que fiquei maravilhado e de coração apertado.



Sangue do meu Sangue, João Canijo, Portugal, 2011

K. Douglas

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma nota sobre o caso Público

O Público sempre foi o jornal lá de casa. Depois do desaparecimento do Diário de Lisboa (contaram-me, porque não tenho memória desses tempos) instalou-se uma sensação de vazio e de falta de um jornal diário de referência numa casa de ávidos leitores. O Público veio preencher este vazio e, desde que saiu o primeiro número, tornou-se uma compra diária. Lembro-me de começar a ler o jornal desde muito cedo, a princípio por causa de Calvin & Hobbes e, posteriormente, porque me tornei numa precoce entusiasta da política. No entanto, o entusiasmo com o jornal morreu um pouco com a saída de Vicente Jorge Silva e as mudanças na direcção. José Manuel Fernandes representava uma linha política diferente, na qual nenhum de nós se reconhecia. Isso não implicou uma mudança de jornal da nossa parte porque, para dizer a verdade, não havia nenhum outro diário de referência no pobre panorama jornalístico português. O Público continuou a ser o melhor porque abria espaço ao comentário, aos cronistas, para além da notícia pura e simples; porque queria ser um espaço de debate. Contudo, ao longo dos anos, a minha insatisfação cresceu. Por um lado, porque a qualidade da escrita deixa, por vezes, muito a desejar para um jornal que se quer destacar da mediania. Erros gramaticais, ignorância de alguns jornalistas (desde quando é que a época vitoriana se situa no século XVIII ou que o Império do Sol Nascente é a China?), para além da recorrente prática jornalística de copiar artigos da wikipedia ou de outros jornais ou blogs internacionais sem nunca referenciar as fontes. Sendo eu leitora assídua, por exemplo, da imprensa cinematográfica internacional e de vários sites, quantas vezes encontrei eu artigos sobre cinema que não eram mais que uma mera tradução de outros que já tinha lido online? Eu sei que isto se faz em todos os jornais mas volto a dizê-lo: o Público apresenta-se como uma referência. Nos últimos anos, tenho tido a sensação que este jornal se preocupa cada vez mais com a imagem e cada vez menos com a qualidade dos jornalistas.
O pior de tudo, no entanto, foi a viragem política na direcção. Isto tornou-se ainda mais grave no último ano e tal, depois dos problemas de Belmiro de Azevedo com o governo socialista. O “patrão” impôs claramente uma agenda que em nada colidia com a linha política do pró-PSD José Manuel Fernandes. Deixem que vos diga uma coisa: não voto no PS e não gosto de Sócrates. Até eu, contudo, que não tenho simpatia nenhuma por este governo, sou capaz de perceber (e muitas vezes discuti isto no último ano) que há uma campanha contra Sócrates, cheia de ataques pessoais ao Primeiro-Ministro. É demasiado óbvio.
Depois de tudo isto, quero apenas dizer uma coisa: não o escondam. Em Portugal, os jornais têm um grande receio de se apresentarem como defensores de uma determinada linha política, porque acham que têm de projectar uma imagem de isenção. Mas porquê? Não há mal nenhum em se ser partidário, mas sejam honestos em relação a isso. Muitos jornais de referência por esse mundo fora apresentam claramente as suas opções políticas. O New York Times sempre se alinhou com os democratas; todos nós sabemos qual é a linha política do Le Monde ou do El País. Em Inglaterra, há um perfil de leitor para cada jornal, desde um Guardian a um Daily Telegraph (ou Torygraph, como é chamado pelos seus opositores). Eu leio o Guardian e identifico-me com o perfil do típico "Guardianista". Eu sei que ninguém lê este blog, mas mesmo assim deixo um apelo: sejam transparentes. Se o Público ou qualquer outro jornal tem uma determinada linha política, admitam-no. Os leitores mais atentos sabem perfeitamente onde é que o seu jornal se situa no espectro político, para quê, então, escondê-lo? Deixem-se é de jogos sujos.
Eu continuo a ler o Público, não tão atentamente como há uns anos atrás, mas continuo. Não me identifico com a linha política, acho que tem perdido qualidade, mas mesmo assim não tem competição. Por isso mesmo acho que, se o jornal quer manter o prestígio, tem de começar a ser honesto com os leitores. Assumam-se como oposição, não tentem mostrar isenção. Apenas têm a ganhar em credibilidade. Isto aplica-se a todos os jornais portugueses.
Maria Braun

domingo, 15 de março de 2009

Stewart vs. Cramer

Há cerca de 9 anos que vejo fielmente o Daily Show e que ouço atentamente Jon Stewart. As últimas semanas relembraram-me porque o faço. A batalha de palavras entre Stewart e a CNBC – que o comentador financeiro Jim Cramer resolveu levar a peito, expondo-se desnecessariamente à fúria de Stewart – culminou na 5ª feira passada, com o apresentador do Daily Show a esmagar toda a credibilidade de Cramer. Esta história está por todo o lado, domina os blogs de opinião, os jornais e, segundo se diz, chegou à Casa Branca. Mas, mais que tudo, esta tomada de posição de Jon Stewart leva a uma pequena reflexão. Porque é que o trabalho dos jornalistas está a ser feito por um humorista? O apresentador de um programa satírico é, citando o New York Times, “the most trusted man in America”. Ele fez as perguntas difíceis que nenhum jornalista ousava fazer durante os anos Bush; agora, em altura de crise financeira, é Stewart que pergunta porque é que os comentadores e jornalistas financeiros não só não viram a crise a chegar, mas ainda a desvalorizaram enquanto puderam. Stewart aponta o dedo e diz que aqueles que tinham a responsabilidade de fazer jornalismo de investigação e de descobrir o que se estava a passar fugiram a essa responsabilidade e continuaram a servir os interesses das empresas. Todos nós sabemos quão confortáveis esses dois mundos estão um com o outro, ao ponto de já não se distinguirem – e isto também se aplica ao jornalismo político. Quando os jornalistas estão mais preocupados em fazer parte de um grupo e em defender os interesses desse grupo, a investigação acaba por ficar a cargo daqueles que não tem essa função. Jornalistas financeiros? Não, profetas do mercado livre. Parabéns a Jon Stewart. Porque ele prova que é melhor jornalista do que muitos que usam esse título.
Maria Braun

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dia Histórico


Contagem decrescente para a tomada de posse. Finalmente Obama!


Maria Braun

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O (verdadeiro) Socialismo ainda vive?


Billy Bragg, There is Power in a Union


Resolvi juntar-me ao debate que une os outros membros deste blog há já algum tempo. Esta é dedicada à Sally, ao K., a mim própria e a todos os fãs de um dos últimos socialistas britânicos (se excluirmos Ken Loach) de seu nome Billy Bragg.


Maria Braun (do seu desterro)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Miss Carabina 2008 à conquista da América

The modern conservative is engaged in one of man's oldest exercises in moral philosophy; that is, the search for a superior moral justification for selfishness. JK Galbraith

A América está à beira de eleger para a Casa Branca uma dupla tão perigosa como a que actualmente ocupa o poder. E eu que pensava que não se conseguiria pior que Bush/Cheney… A escolha de Sarah Palin é absolutamente assustadora. Tudo em Sarah Palin é assustador. Mas o que a torna perigosa e, visto de fora, uma péssima escolha, é o que a torna tão apelativa dentro da América. Palin é ultra-conservadora, fanática religiosa (e criacionista), apoiante do lobby das armas, profundamente nacionalista, com um forte pendor bélico e retrógrada em questões sociais (é contra a liberdade de escolha das mulheres no que diz respeito ao aborto, por exemplo). E é uma mulher profundamente ignorante. Já afirmou que apoiaria uma guerra contra a Rússia e uma intervenção unilateral no Paquistão. A sua moralidade política não está acima de escrutínios, dadas as investigações que lhe estão a ser feitas por abuso de poder. Quem quer uma mulher assim como vice-presidente, sobretudo quando o potencial presidente é um homem na casa dos 70 anos? Pelos visto, muitos americanos. É por essas mesmas razões que é tão popular na América profunda, fechada e reaccionária. A antiga candidata a Miss Alaska, mãe de uma família alargada, que tem uma predilecção particular pela caça, é tudo o que esse povinho gosta. O ser ignorante nem é um problema – veja-se George W. Bush. Até já teve direito a ser transformada em boneca estilo GI Joe para poder ser comprada para as criancinhas desses horríveis rednecks.
Mas há um outro problema aqui que merece ser tratado – e que me interessa particularmente por razões óbvias. O spin feito pelos republicanos para apresentarem Palin como uma feminista, o cínico apelo ao eleitorado feminino depois de verem o fenómeno Hillary Clinton, é preocupante. Em primeiro lugar porque insulta a inteligência das mulheres. Eles devem supor que as mulheres são tão superficiais que votarão nela apenas por ser mulher e que ignoram a ideologia política que a sustenta – isso é algo demasiado complexo para as suas cabecinhas. Só alguém que pensa assim poderá supor que o eleitorado de Hillary Clinton vai agora votar em Sarah Palin apenas com base no género. Nenhuma apoiante de Clinton se pode rever em Palin. Ou pelo menos, era o que eu pensava. Mas parece que Palin se está a tornar popular entre as mulheres caucasianas na América.
O Partido Republicano, responsável por imensos ataques misóginos a Clinton, está a tentar apropriar-se do movimento feminista. Algo que Palin nunca poderá ser porque nunca representou os interesses das mulheres. Os republicanos nunca se preocuparam com as mulheres – e estão agora a usá-las como instrumento político para seu próprio proveito, com a perfeita noção que nunca irão fazer nada para promover a igualdade. Palin é a encarnação perfeita dos três K do partido nazi. Ao tentar identificá-la com os movimentos que promovem a igualdade das mulheres, está a esvaziar-se esses mesmos movimentos, a subverter o seu papel e os seus princípios e a tentar lançá-lo numa crise de identidade. Anuncia-se uma regressão neste campo.
Sempre, desde o início, fui apoiante de Obama, apesar de nunca ter acreditado que ele fosse ganhar as eleições. Agora ainda estou menos convicta disso. A perversa escolha de Palin foi uma boa estratégia, tresandando a Karl Rove por tudo o que é sítio. A máquina republicana volta a fazer das suas. Se, à partida, McCain, mais liberal, não parecia tão mau quanto Bush, agora torna-se num pesadelo. O que diz muito sobre a América é o facto de, enquanto muitos europeus que poderiam apoiar McCain já não o fazem por causa de Sarah Palin, há muitos americanos que não votariam McCain e que agora votam por causa de Sarah Palin. Este é o mais deprimente e assustador retrato que pode haver de uma nação. Se votarem na “hockey mum” todo o mundo sofrerá com isso. Depois queixem-se de que a América está isolada…
Um conselho: vejam a fantástica cobertura que Jon Stewart tem estado a fazer da escolha Palin e a sua brilhante desconstrução do discurso republicano. Dá-nos muito que pensar.
Maria Braun

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ícone do nosso tempo?


Ou a promessa do fim de 8 anos de pesadelo?

Maria Braun

quarta-feira, 18 de junho de 2008

(In)Culturas

Depois de uma longa ausência, resolvi voltar ao activo, talvez porque a chegada do calor desperta aquela sensação de tédio e de longas tardes de ócio, mesmo quando há muito trabalho pela frente. Entre crises económicas e Europeu de futebol, os jornais continuam mais preocupados com faits divers e vendettas pessoais do que com uma análise séria do que se passa no país. As três personagens centrais no nosso panorama político são as menos inspiradoras que se possa imaginar e levam-nos a perguntar onde se encontra o nosso Obama. Há uma absoluta falta de ideias e não parece que isso vá mudar, se olharmos bem para as novas gerações do panorama político. Uma situação saudável, portanto.
Falemos de um dos problemas: a educação. Penso que Sally, no texto anterior, tocou com o dedo na ferida. Há uma desvalorização contínua e socialmente aceite de uma educação de nível superior em Portugal. Conjugam-se más políticas educativas e um mercado de emprego limitador e de vistas curtas.
Primeiro problema: falta de interesse. Quando entraram os fundos europeus em Portugal, em épocas de cavaquismo, fez-se o mais criminoso desperdício de dinheiro possível. A Irlanda, por exemplo, investiu na formação dos seus cidadãos. Hoje, atribuem o seu rápido desenvolvimento a uma escolha acertada em altura de fazer investimentos. Portugal – ou melhor, Cavaco – gastou tudo em betão. Não se apostou na população. Não se apostou numa formação que hoje faria toda a diferença. Não se tentou mudar as estruturas que permitiriam um verdadeiro desenvolvimento. Não, antes desvaloriza-se qualquer interesse que se possa ter numa formação sólida, achando que a Universidade só serve para formar “gestores” (que raio de curso é Gestão, afinal?) ou informáticos. Por isso é que, neste país, “intelectual” é uma palavra feia. Ser-se inteligente, culto, educado, é insultar o português médio.
Esse é outro dos problemas: a visão distorcida do papel da educação. Ouvi, há tempos, uma discussão sobre “se vale a pena apostar num curso universitário”, sobre “empregabilidade”, sobre a escolha do curso certo, isto é, aquele que é útil porque dá emprego. Estas conversas deprimem-me imensamente. Para já, pensa-se que a Universidade é um centro de emprego. Pois bem, não é. Nem deve ser. A Universidade é um centro de saber e deveria ter como objectivo “formar”, no sentido mais lato que a palavra possa ter. Um licenciado teria, num mundo ideal, um sólido grau cultural e a capacidade de raciocínio independente, dados por uma boa formação. É óbvio que não é assim, infelizmente. Todos os que passaram pela universidade pública nos últimos anos o sabem. Aposta-se na mediania, na mercantilização do “canudo”. No poder dizer “o meu filho é dôtor”, mesmo que seja licenciado por uma privada de vão de escada.
As conversas utilitárias não ajudam. Se o objectivo é apenas um emprego, porque não ir para o ensino profissional? É para isso que ele serve. Também é óptimo – e muito importante – que se aposte em áreas científicas. Mas é só isso que interessa? E o resto? Como as outras áreas não são relevantes, são secundarizadas, mesmo a um nível de formação básica. Mesmo que se queira incentivar os portugueses a estudar áreas científicas a um nível universitário, não podem ser descuradas as outras áreas nas escolas básicas e secundárias. Já sabemos que a cultura não é importante para os políticos actuais, mas que cidadãos é que estamos a formar nas nossas escolas, se não houver uma aposta no ensino da Filosofia, da Literatura, das Línguas Clássicas, de outras línguas estrangeiras que não apenas o inglês? Em França, por exemplo, os alunos do ensino obrigatório estudam não só literatura francesa, mas também obras fundamentais de outras literaturas – os textos homéricos, por exemplo. Em Portugal, retiraram Camões do 9º ano porque, claro, os alunos portugueses são estúpidos e só conseguem aprender a sua língua com textos “jornalísticos”, aliás todos muito bem escritos, como sabemos.
Vejo amigos e conhecidos germânicos e comparo currículos. Para além de todos eles – a amostra é pequena, eu sei, mas mesmo assim significativa – terem formação musical, todos estudaram também Latim na escola. No ensino português só pode estudar Latim quem vai para Humanidades no secundário. No meu caso, por exemplo, como não escolhi Humanidades, estudei Latim por iniciativa própria quando fui para a Universidade. Escusado será dizer que me fez não só reaprender como também perceber muito melhor a estrutura gramatical portuguesa.
Consequência? A maioria dos alunos que chega às universidades tem capacidade de memorização mas não a maleabilidade de um pensamento crítico que só alguém com uma certa bagagem cultural consegue ter. Perdeu-se qualquer tipo de noção romântica da importância do desenvolvimento intelectual. Eles são a consequência de anos de más políticas de ensino, conjugadas com a má formação estrutural da sociedade portuguesa.
Outro problema: as limitações no mercado de trabalho que não são contrariadas pelo discurso do governo. Há aquele hábito terrível de culpabilizar o aluno por escolher o curso errado. Pergunto-me, então, porque é que em países como o Reino Unido ou a Alemanha há uma alta absorção de licenciados em, digamos, Ciências Sociais, inclusivamente por grandes empresas, e em Portugal esses licenciados são vistos como um empecilho? Sally falou de História – em Inglaterra é um curso valorizado. Vistas curtas dos nossos empregadores, sem dúvida, que não percebem o valor que pode ter o empregar licenciados com uma grande variedade de formações, para além da visão global que alguém de Ciências Sociais tem e que um “gestor” nunca poderá ter. Pior ainda – pessoas ligadas ao governo validam esta posição, ajudando a perpetuar o problema.
Portugal sempre teve um baixo nível educacional que nem a escolaridade obrigatória consegue combater. É estrutural. Uma mudança radical que vá às raízes da questão é uma das chaves na luta contra alguns dos maiores problemas que Portugal enfrenta. Eu sei que não estou a dizer nada de novo, mas se não se faz absolutamente nada para melhorar a situação, se não se tenta alterar verdadeiramente as estruturas, então não será um gasto desnecessário de espaço o continuar a bater nesta tecla.
Maria Braun

sábado, 15 de dezembro de 2007

Él tema de nuestro tiempo - Sócrates y Gasset.

Parece que o nosso primeiro-ministro - Avé! - gosta de Ortega y Gasset. Perguntamo-nos o que extrairá o nosso encantador, charmoso, primeiro-ministro dos textos de Gasset. Por exemplo, ao ler Historia como sistema, nomeadamente aqueles parágrafos em que se diz que a partir da nossa circunstância devemos criar novos sistemas políticos, pois já fomos feudais, absolutos, liberais, etc. Será que Sócrates, convencido que, afinal, não é uma coisa, mas um existente e, por isso, uma história, uma forma de narrativa, pondera um sistema político para o futuro? Será que são estas ideias que estão implícitas nos seus discursos? Será que os clichés do movimento, do olhar para a frente, da construção, etc., etc., se fundamentam na leitura de Gasset? Ou será todo um projecto para as calendas gregas? Talvez Sócrates goste da limpidez, do entusiasmo, se assim se pode dizer, de Gasset na crítica que faz à ontologia tradicional. Porém, suspeitamos que Sócrates fique em frente ao seu grande e largo espelho e repita "Yo soy yo y mi circunstância." O que significa: "Soy muy rico y muy bello."Em último caso, esperemos que sim, pois não queremos que o nosso hermoso primeiro-ministro deixe de ser, precisamente, o tema do nosso tempo.
K. Douglas