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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tinker Tailor Soldier Spy




Este blog anda esquecido há quase um ano. A vida real (e a falta de estímulo talvez) interfere e afecta-nos a todos. Espero sinceramente que ainda alguém cá venha. K? Sally? Estão por aí?
Que melhor razão para nos retirar deste longo dry spell do que um filme (what else?) que está para estrear? E que é um dos melhores do ano? Falo de Tinker Tailor Soldier Spy, de Tomas Alfredson. Ando a acompanhar este filme há cerca de um ano, a princípio por uma simples razão: o elenco. Acho que não houve um elenco melhor este ano. Não só é um “quem é quem” de grandes actores britânicos, como é a definição do que TVTropes chama um “All Star Cast”. Claro que ser realizado por Alfredson, autor do excelente Let The Right One In, era um bónus. Por isso, preparei-me, li o livro, segui o progresso e os timings do filme. Quando finalmente estreou tive algum receio: depois de toda esta expectativa, conseguiria o filme cumprir o que esperava dele ou seria uma desilusão?
Não me deveria ter preocupado; Tinker Tailor é excelente. As críticas que saíram de Veneza, seguidas pelos críticos britânicos quando estreou no Reino Unido em Setembro e, agora, da crítica norte-americana, são unânimes. Este é um dos filmes do ano. Gary Oldman é absolutamente fabuloso num papel que exige contenção, bem diferente da sua imagem de marca. George Smiley é frequentemente descrito como o anti-Bond, um homem de meia-idade que qualquer um de nós esqueceria imediatamente se nos cruzássemos com ele na rua. Homem de poucas palavras mas de uma inteligência fenomenal, um observador que se revela, contra todas as expectativas, como um homem perigoso e até cruel, se a situação o exigir. Só uma vez, ao longo do filme, Smiley levanta a voz e, quando o faz, surpreende-nos a todos e causa uma reacção na audiência. Oldman é fantástico neste papel, o que ele comunica com uma simples expressão (passam cerca de vinte minutos de filme até ele dizer alguma coisa) é testamento da sua qualidade enquanto actor.
Gary Oldman tinha muitas barreiras para ultrapassar. Smiley é um personagem extremamente conhecido e popular no Reino Unido; para além disso, a mini-série que adaptou este livro em finais dos anos 70 deu-nos aquela que muitos consideravam a versão definitiva deste personagem, desempenhada por Alec Guinness. O fantasma de Guinness atormentou de início Oldman, como este confessou em entrevistas. Não precisava de se ter preocupado. Guinness é um dos meus actores preferidos, mas Oldman controla este filme numa autêntica masterclass de representação.
Entre o fantástico elenco, que inclui John Hurt, Colin Firth, Tom Hardy, Toby Jones ou Ciaran Hinds, há outras duas interpretações que, para mim, sobressaem. Falo de Mark Strong como Jim Prideaux e de Benedict Cumberbatch como Peter Guillam. Prideaux é uma das personagens mais interessantes do livro e Strong faz-lhe justiça, dando todas as camadas emocionais a este homem traído e torturado. Aquele olhar final que troca com Firth durante a montagem ao som da “cheesy” versão disco de La Mer (para mim uma das sequências cinematográficas do ano) revela mais do que páginas de diálogo. Quanto a Cumberbatch, confesso que a minha opinião é suspeita, como assumida fã que sou – e quem não seria depois de o ver na versão de Frankenstein que Danny Boyle dirigiu para o National Theatre, para não falar em Sherlock, que já vi e revi mais vezes do que posso contar. No entanto, esquecendo tudo isso, digo de novo: Cumberbatch é memorável e consegue tornar-se no centro emocional do filme, naquela cena em que sacrifica a sua vida privada ao serviço do MI6. Para além disso, é nele que se centra uma das sequências mais tensas do filme, quando Guillam rouba, a pedido de Smiley, um ficheiro nos arquivos do MI6, debaixo do olhar de toda a gente.
Tinker Tailor é mais do que um whodunnit; quem leu o livro sabe que a identidade do agente duplo é relativamente óbvia desde o início. O que interessa mais a Le Carré é a arquitectura do enredo, a ligação entre todas as pequenas histórias, como elas se interligam e formam um todo, como Smiley as lentamente junta para chegar à identidade do homem que procura. O que interessa é o ambiente, a desconfiança entre se estabelece entre estes homens, a atmosfera. Isso é capturado por Alfredson, num filme tão cerebral, lento e complexo quanto o livro, que não irá agradar a quem espera ver um tradicional filme de espionagem, cheio de acção e perseguições. Como disse acima, isto não é Bond, nem é Bourne. É um filme sobre desconfiança, traições e lealdade entre um grupo de homens que, “once upon a time”, se consideravam amigos. De notar o fantástico design de produção, os cenários (como aquela sala laranja onde Control se reúne com os seus homens), o ambiente da Londres dos 70s em deprimentes tons de castanho que não são muito diferentes das cores com que é retratado o bloco de Leste. A escolha de não revelar totalmente nem Karla nem Ann Smiley é também uma boa opção, fazendo com que se sinta a presença de ambos, os dois fantasmas que atormentam Smiley (a sua némesis e o seu ponto fraco respectivamente), sempre presentes sem o verdadeiramente estarem.
Se há alguma nota negativa a apontar ao filme é a forma como a sua construção o pode tornar difícil de seguir para quem não leu o livro. Com apenas duas horas, é impossível transmitir a riqueza das personagens com as suas histórias e passado, que ocupam páginas e páginas do livro. Consequentemente, algumas personagens bem centrais como Roy Bland ou Toby Esterhase são quase marginalizadas. O filme poderia ter mais uns 15 ou 30 minutos para explicar melhor as razões por detrás da traição do agente duplo, cuja revelação é quase anti-climática. Como disse acima, essa identidade não é o mais importante mas, para quem não conhece o livro, uma explicação mais elaborada seria uma ajuda importante. O filme assume, penso eu, que se leu o livro.
Para terminar, uma observação. Quem esteve em Inglaterra desde que Tinker Tailor aí estreou sabe o impacte que ele teve. Le Carré e a trilogia de Smiley contra Karla (constituída por este livro e por The Honourable Schoolboy e Smiley’s People) voltaram a estar na moda. Estes livros estão em todas as montras de todas as livrarias, em novas edições; é comum cruzarmo-nos na rua com quem leva um Le Carré debaixo do braço. Tendo em conta que eles são testemunhos de um tempo que as gerações mais jovens não têm memória, a Guerra Fria, é interessante ver o interesse que estão a suscitar nessas mesmas gerações. Talvez o filme seja tópico nisso mesmo, um retrato de desconfiança num momento político, social e económico em que esse é o sentimento predominante. Contexto é tudo? Será que por muito longe que estejamos da Guerra Fria, esta história esteja a ter ressonância por essa razão?
Fico-me com a promessa de deixar aqui a minha lista de melhores filmes do ano dentro de dias. Até lá.
Maria Braun

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um filme e duas pequenas notas

Há cerca de 3 semanas que ando para colocar este texto no blog. Eu sei, eu sei… Em primeiro lugar, quero agradecer ao K pelo vídeo. Em segundo lugar, uma menção a Mad Men, cuja terceira série terminou este fim-de-semana na televisão americana. Foi uma temporada diferente, mais centrada na vida doméstica dos Draper do que no escritório e, para mim, não tão perfeita como as duas primeiras. Preciso, no entanto, de a digerir primeiro, antes da minha opinião final. Mas deixem que vos diga uma coisa, o último episódio foi fenomenal. Um dos melhores de sempre nesta série (o que é uma meta bem difícil de atingir, diga-se de passagem). Mas vamos ao tema central deste post.
Um dos filmes que tive o prazer de ver em Outubro no London Film Festival foi a estreia de A Single Man, de Tom Ford, que deve abrir comercialmente nos finais deste ano ou inícios do próximo. Para mim, este era um filme obrigatório – uma adaptação de Isherwood com Colin Firth? Já lá estou. Tinha alguns receios, como é óbvio. Afinal, é realizado por um designer de moda. Havia uma grande probabilidade de se parecer com um anúncio a um perfume. Nada mais errado. É belíssimo, sem dúvida, mas não deixa que a estética se sobreponha à história que quer contar. A autenticidade emocional é inegável. É um filme perfeito? Nem pensar, mas o argumento e a realização de Ford são consistentes e excelentes para um estreante, de uma grande elegância. Há um certo kitsch, sobretudo no uso (óbvio) das cores, mas é um kitsch Almodóvar, que não prejudica o filme. E, por falar em Mad Men, A Single Man partilha com esta série a atenção aos pormenores mais minuciosos do estilo dos inícios de 60, desde o design de interiores ao guarda-roupa. É uma delícia visual, que consegue substituir o monólogo interior de Isherwood por uma série de imagens que transmitem a evolução no estado de espírito do personagem central, atingindo o objectivo que uma adaptação cinematográfica de um livro como este deve ter.
A âncora do filme é, no entanto, a interpretação de Firth. Desde que ganhou o prémio de melhor actor no Festival de Veneza, em Setembro, Colin Firth tem sido apontado como um dos mais fortes candidatos ao Óscar no próximo ano (os críticos já consideram a nomeação como certa). Deixem que vos diga: o hype é merecido e ainda bem. Firth é um actor notável que tem sido completamente desaproveitado pelo cinema e que não tem conseguido um papel à sua altura. Claro que uma das principais razões foi ter sido vítima de typecasting depois de Orgulho e Preconceito e de, pelo menos em Inglaterra, o seu nome ser sinónimo de Mr. Darcy. Finalmente, Firth brilha com uma grande interpretação num óptimo filme. Espero que A Single Man seja para Firth o que Victim foi para Dirk Bogarde. Todo o elenco é aliás, digno de nota, incluindo a sempre fabulosa Julianne Moore.
A Single Man conta a história de George Falconer, um professor universitário, nos anos 60, que perde o seu companheiro num acidente de automóvel. Com ele, perde também o desejo de viver (o filme segue uma direcção diferente do livro de Isherwood). A história centra-se num só dia, que Falconer pretende que seja o último. É uma preparação para o suicídio, o acompanhar dos passos finais, das visitas e dos gestos obrigatórios na despedida. No entanto, Falconer vai encontrando, ao longo do dia, imagens, pessoas e momentos que criam dúvidas sobre a validade da sua decisão. É uma trajectória transfiguradora no espaço de um dia. É uma trajectória que vale a pena seguir. Recomendado.


Maria Braun