quarta-feira, 28 de novembro de 2007

No cinema: Hot Fuzz




Depois da desilusão que foi o lançamento directo em DVD de Shaun of the Dead, uma das nossas distribuidoras decidiu redimir-se e exibir o novo projecto da dupla Edgar Wright – Simon Pegg nas salas de cinema.
O que dizer de Hot Fuzz? Depois do efeito- novidade que foi Shaun of the Dead, desilude um pouco. É, no entanto, uma divertida comédia, bastante acima da média dos filmes deste género que conseguem ser distribuídos por cá. E para os que cresceram com um sério vício por comédias inglesas e se lembram de Pegg em Hippies, Big Train ou, mais recentemente, Spaced, é sempre um prazer vê-lo em acção (para além de se poder jogar ao “spot the comedian” com praticamente todo o elenco secundário). Seria, mesmo, um grande filme se perdesse cerca de 30 minutos. As duas horas de duração começam a pesar com cenas que se arrastam mais do que deviam, sobretudo no quarto final, para além da óbvia necessidade de um trabalho de montagem menos indulgente. Por vezes torna-se mesmo repetitivo e fastidioso, sobretudo para um público que aprecie mais o conceito que enforma esta comédia ou mesmo a ideia de comédia em si, do que o oco cinema de acção muito americano que este Hot Fuzz parodia.
Esse é outro ponto que merece atenção. O facto deste filme ser vendido como uma comédia pode levar o espectador mais incauto a um verdadeiro choque. É explicitamente – e por vezes caricaturalmente – violento. Hot Fuzz não brinca com os filmes de acção como se estes fossem um género inferior. Há aqui, tal como na personagem Danny, um genuíno carinho por aquele género. Consegue aquele equilíbrio entre a sátira e o respeito, por vezes difícil de alcançar, por um determinado género cinematográfico. Os seus lugares-comuns estão todos lá. Há violência gratuita, longos tiroteios, perseguições, explosões, aqueles ditos-que-pretendem-ser-inspirados-mas-são-constrangedoramente-pirosos, até uma relação com claros contornos homoeróticos entre os dois “buddies” interpretados por Pegg e Nick Frost.
A diferença está no local onde tudo se passa. Esta é a piada estruturante do filme. O cenário não é uma metrópole, mas uma pequena aldeia inglesa onde, aparentemente, os grandes problemas são a fuga do cisne do castelo ou um idoso que corta sebes que não lhe pertencem. Claro que, como numa história de Agatha Christie, todos têm algo a esconder. Uma pacata aldeia, repetente no título de melhor aldeia de Inglaterra e orgulhosa desse estatuto, transforma-se numa espécie de Bronx. Aqui, até o padre ou a directora da escola estão armados até aos dentes e participam no grande tiroteio final. Ao escolher este cenário, o humor do filme alarga-se e, para além de parodiar o cinema de acção, transforma-se numa sátira à mentalidade de pequena terra, com os seus preconceitos e conservadorismo, tornando-o num produto distintamente britânico. A piada é levada ao ponto do absurdo, mas não é isso que o prejudica, muito pelo contrário. É um dos aspectos mais divertidos do filme. O que prejudica é o facto de parecer acabar várias vezes antes da verdadeira conclusão e cada um dos finais consecutivos ser mais incongruente do que o anterior. Nem sempre no bom sentido. Essa construção faz parte do humor do filme, mas não é completamente conseguida.
O veredicto? A ideia central é bastante boa, a concretização é desequilibrada. Os ingleses já há muito nos habituaram a interpretações sólidas e este filme não é excepção. Com um excelente elenco secundário que conta com Jim Broadbent, Billie Whitelaw, Paddy Considine ou Timothy Dalton, os actores não forçam a piada, deixam-na fluir. Por vezes, o humor é muito mais atmosférico do que de graça imediata e identificável e isso beneficia o filme. Um trabalho mais apurado da tesoura e estaríamos perante uma verdadeira gema.


Maria Braun