quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Les bourgeois c’est comme les cochons…


Les Bourgeois

Em Outubro comemora-se os 30 anos da morte de Jacques Brel. Como se precisássemos de razões para celebrar a sua carreira e colocar vídeos seus no blog… Pode parecer um sacrilégio escolher um com legendas em inglês, mas considerem esta acção como um favor a todos aqueles que não percebem francês, porque seria um pecado não compreender as fantásticas letras do grande Brel.

Maria Braun

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Óscares


Já é tarde para este breve comentário, mas, verdade seja dita, a cerimónia de entrega dos Óscares é aborrecida. Vale a pena ver como os amores impossíveis da existência estão vestidas e pouco mais. Não foi um verdadeiro espectáculo: não há surpresas, arrebatamento. Os discursos dos actores são os mesmos clichés todos os anos - os filmes fazem-nos sonhar e afins... E o Óscar para melhor actor ou actriz vai sempre para o desempenho que requer uma transfiguração, é certo. Apenas dois casos, e de actores de quem gosto. Quando Nicole Kidman ganhou o Óscar pela sua interpretação nas Horas, cometeu-se uma injustiça. Quem devia ter ganho era Julianne Moore pelo seu desempenho em Longe do Paraíso, que raiava a perfeição. Bem sou suspeito: adoro o filme e há muitas cenas em que se pode sublinhar afincadamente a beleza e a perfeição de Moore. Por exemplo, quando se despede de Dennis Haysbert à porta do cinema e lhe diz: "You are so beautiful."É certo que gosto de Kidman no papel de Woolf e que há também momentos marcantes. Contudo, se se fala de graça, então deve-se apontar o plano em que Moore e Haysbert estão no bosque e esta lhe pergunta se aquilo é um caminho. Ele responde-lhe que sim e ela diz-lhe qualquer coisa como "então vamos bisbilhotar." E apesar (também) do excelente desempenho de Hoffman em Capote - uma cena brilhante é aquela em que Capote chega à apresentação do livro e é fotografado nas escadas do edifício. É a pura soberba da fama que aí é capturada - o Óscar devia ter ido - escândalo! - para Ledger. Uma das cenas mais geniais de Brokeback Moutain é lá para o final do filme, em que Ledger está repostado numa cadeira a fumar. A sua respiração é é fumo e não ar, como se tivesse perdido a naturalidade da vida. É quase como uma pequena percepção do monte de destroços que é a vida daquele homem. Acho que este comentário pode gerar alguma controvérsia. Moral da história: faça um biopic e pode contar com um Óscar - é quase certo. Por fim, para quem tem que ver a cerimónia pela TVI (no cabo deve haver outras possibilidades), está sujeito aos comentadores de serviço, que se atropelam constantemente na leitura das fichas técnicas dos filmes e dão uns bitaites sobre o que se vai passando. Solução? Ver no dia a seguir. Não há comentários, não há intervalos e a coisa fica despachada.

K. Douglas

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Férias

O Norte cheira a lareira e vinho verde, à terra húmida do orvalho nocturno. As férias eram frias e chuvosas, constantes na procura do crepitar quente dos ramos de eucalipto. Mas lá fora tudo era uma aventura, saltar os penedos (“quem salta o mais alto?”), correr atrás dos animais, tentar sachar sem poder com a enxada. O espaço era imenso e os dias intermináveis. Só o escurecer nos conduzia à casa, talhada no granito austero, mais escura do que o próprio céu. No escano, uma mulher velha, um terço nas mãos, a cabeça a cair de sono. O gato ronronante roçando-se nas galochas enlameadas. O fogo estala. “Não brinques com o fogo que fazes chichi na cama!”. E a cama estava gelada e húmida, os cobertores cheiravam a mofo. Na parede, o estuque caía. Adormecia a olhar para ela, a tocar as irregularidades, a encher os dedos de pó. Evitava a janela. “À noite, tem cuidado. Vês aquelas luzes ali ao fundo? São as bruxas a dançar... se elas te virem, atiram-te com um pente.”. O silêncio trazia todas as vozes, o chão a estalar, o vento contra os vidros, os uivos do lobo lá longe mas que parecia tão próximo. Voltarei a acordar, Senhor?
Regresso ao sul na madrugada. Ainda o escuro lá fora e o reboliço cá dentro. Carregar o carro com as malas feitas. O pão duro e a tigela de leite servidos em camisa de dormir. A pele rugosa a revelar-se pelo decote recatado, os olhos fundos e cansados, submersos pela partida de um filho. O sono (ou a dor) enrouquecia-lhe a voz. “Ide com calma! Tenham cuidado com a estrada!”. As lágrimas pontoavam o adeus e a incerteza se, da próxima vez, todos ainda ali estariam. A partida sabia a sal.
Sally Bowles

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Um género de biografia (parte 2)

Não podia concordar mais com o que K. Douglas escreveu aqui sobre as colecções de discos. Como elas são biografias. Lembram-se como Rob, de Alta-Fidelidade, organizava os discos? Ele colocava-os pela ordem em que tinham sido comprados. Os álbuns contavam a história da sua vida, como tinha ido do músico A ao C, passando por B. A história do desenvolvimento do seu gosto pessoal, do seu crescimento, estava toda ali, naquela colecção.
Naturalmente, nem todos nós desenvolvemos a mesma relação obsessiva com os nossos discos. Mas é impossível não associar certos acontecimentos, pequenos momentos ou anos inteiros, a uma canção, um álbum, um músico. Há aquelas canções que são especiais porque parecem ter sido escritas especialmente para nós. Existem discos para certos momentos – nostálgicos, celebrativos, depressivos. Discos que nos trazem à memória pessoas especiais.
Uma vez organizei a minha playlist para tardes invernosas, cinzentas e chuvosas, que incluía Kings of Convenience, Rufus Wainwright, Divine Comedy ou Jay-Jay Johanson (dos tempos de Whiskey). No secundário, associava determinadas músicas a certas disciplinas – ouvia horas de Wagner enquanto preparava testes de Economia, ou a 5ª de Mahler para Filosofia. O próprio K. Douglas recebeu, em forma de disco, uma crónica do meu primeiro ano de liberdade absoluta – crónica que incluía canções que se ouviam nessa altura, dos Interpol aos Libertines, passando por Franz Ferdinand ou The Rakes.
É impossível olhar para os meus discos e não ver uma história completa por detrás de cada um deles. “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia não há nada mais simples”.
Apesar de estarmos na época da música digital – eu própria tenho um iPod que muito estimo – nada pode competir com o objecto em si. Fazer downloads de música é como comprar livros online – é útil, prático, todos nós o fazemos, mas é um acto sem alma. Nada se compara ao entrar numa loja de discos, percorrer as prateleiras, tocar, olhar, admirar. Voltar para casa com um saco cheio de discos, uns comprados depois de longa reflexão, outros por impulso, colocá-los junto aos outros e, assim, juntar mais uma peça à construção da nossa história.
Maria Braun

sábado, 9 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A colecção de discos: um género de biografia




O último disco que comprei foi o Tigermilk dos Belle and Sebastian. Encontrei-o a 10 euros numa loja de discos em segunda mão. Como é mais ou menos regular (ou pelo menos já foi mais assim), esta loja encontra-se num centro comercial pequeno, cujo dourado nas paredes ainda reluz os anos oitenta. Assim, às vezes, quando estou na esplanada interior, os penteados e as roupas parecem recusar a forma actual. Há uma leve melancolia nas montras das lojas que anunciam promoções de roupa interior ou, então, na montra da loja de informática que acumula gadgets já pouco ou nada funcionais. A loja de discos tem uns quantos vinis colados na montra. São clássicos a dar para o óbvio: Beatles, Amália, um ou outro hit dos anos oitenta (pelos menos não há Bonnie Tyler, julgo), etc. Nada causa surpresa, um leve pulo. E a acontecer, logo seria refreado, pois o que está na montra não é para venda - só os discos no interior. Olhamos para eles e sabemos que não vale a pena o trabalho de os ver. O mau génio do dono da loja não se atreve a censurar o nosso desdém. No entanto, pode encontrar-se sempre alguma coisa que na altura não se comprou e que nunca se encontrou a um bom preço.

A minha colecção de discos é pequena. Há uns tempos atrás reparei que me faltam cerca de 20 discos para atingir um número redondo. Decidi então ir comprando os discos de que gosto muito, mas que não tenho. Não é uma regra rígida. Este fim-de-semana decidi dar uma nova arrumação aos discos e tentei uma arrumação por afinidades. Ao mesmo tempo, separei aqueles que me lembro ter comprado na dita loja. Não são maus discos, embora um ou outro tenha sido comprado porque que queria gastar dinheiro. Exemplo: o disco de covers de Joni Mitchell, editado em 2000. Apesar da soberba cover de si própria - Both Sides Now (uma canção de amor perfeita?) -, o disco não se livra da aura de canções para uma mulher solteira de 30 anos. Por outro lado, vi com nitidez que o primeiro disco que ali comprei foi o Dog Man Star. O sítio dos discos na vida não é apenas um só: desaparecem num sítio para aparecerem noutro. É  o caso de Tigermilk.. Dizer que a música pop está apegada à vida não é um mero cliché. A estante dos discos é um sinal inequívoco disso - remete sempre para algo diferente de si. Por isso é que às vezes se baralha tudo, pondo os discos ao calhas, ou então se arruma por ordem alfabética, o modo mais impessoal, objectivo, de todos.


K. Douglas

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Regresso

- Ainda ontem entrei para lá e já me querem ver pelas costas.
- Não sei onde o pus, juro que não sei.
- Ela contou-me que o Jorge saiu da escola, e eu – isso não é possível.
- São uns filhos da mãe!
- E ela – apostas como foi por causa daquela cena de Segunda –, e eu – acho que não foi isso.
- Então, por aqui! Há quanto tempo!
- Talvez na gaveta da mesinha da cabeceira... procuraste-te lá?
- Devem já ter outro para o lugar! Outro queridinho do chefe...
- Como vai, D. Fátima?
- E ela – depois daquela escandaleira com o prof., ainda achas que não? – e eu – e aquela cena com a Sofia?
- Ah! Sabe como é, cá se vai andando. Uns dias bons, outros piores.
- No guarda-roupa, talvez. Naquela caixa lá em baixo.
- E ouvi falar de um sobrinho do boss. Um miúdo, acabado de sair das fraldas.
- E ela – não, ele já está noutra, não foi isso – e eu – e pensas que aquilo acabou assim?
- Na secretária, não sei... Já o procuraste na secretária?
- É a vida! Eu também tenho andado com uma dor aqui que nem lhe conto.
- E ela – claro que sim, achas que ele é desses – e eu – o que queres dizer com esses?
- Se calhar deixaste-o no trabalho...
- Ai, D. Albertina, eu também ando para aqui... Sabe o que lhe digo, o que é preciso é saúde. Só quando não a temos é que lhe damos valor!
- Ou na casa da tua mãe...
- Já pensaste em procurar outra coisa? Talvez encontres um sítio melhor.
- É verdade, a saúde é a coisa mais preciosa!
- E ela – desses como o João, aquele gajo ainda hoje me telefona – e eu – não fales do João, ele é um querido.
- E não tem preço, nem sai no Euromilhões.
- Se calhar perdeste-o no caminho. No autocarro, quem sabe.
- O que é preciso é saudinha?
- Isto está tão difícil. Muitos cães a um osso!
- E ela – pois tu e o João... – e eu – não sejas parva!
- Com a graça de Deus.
- Nunca se encontra aquilo que se procura!
Saltei do 16 para a rua. Está frio e o céu húmido. Respiro fundo, o ar entra-me nos pulmões. Ainda tenho a cidade nos ouvidos.

Sally Bowles

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ozonesque?


Gouttes d'Eau sur Pierres Brûlantes

Alguém ainda se lembra da frustração, na viragem de século, da espera pelos filmes de François Ozon, então afamado “enfant terrible” do cinema francês? Lia-se tanto sobre ele, sobre os seus filmes provocadores, mas não havia maneira de estrearem por cá. Só graças ao canal Arte é que alguns portugueses tiveram acesso a curtas e longas-metragens de Ozon antes de finalmente estrear Sous le Sable, o primeiro exibido comercialmente em Portugal – e, claro, o primeiro filme mais ou menos “mainstream” do realizador francês. Se Sous le Sable é, ainda, o pico do cinema de Ozon, a sua obra mais completa e equilibrada, a esse filme seguiu-se uma crise criativa, com trabalhos menores como 8 Mulheres, 5x2 ou o fraco Swimming Pool, que agora esperamos, embora com algum cepticismo, ter sido superada, depois do promissor Le Temps qui Reste (ainda não vi Angel, por isso não comento). O que isto significa, portanto, é que aqueles filmes que deram notoriedade a Ozon, as suas obras mais interessantes, ainda que não necessariamente as mais homogéneas, continuam inéditas por cá. É uma pena, até porque tenho um fraquinho por um destes filmes, talvez o meu preferido, Gouttes d’Eau sur Pierres Brûlantes. Gouttes d’Eau… é uma adaptação de uma peça escrita por Fassbinder e decorre na Alemanha dos anos 70. Crónica de uma relação destrutiva, da mais recente vítima de um homem sedutor e predatório, que conquista e descarta amantes com a mesma facilidade insensível – Gouttes d’Eau tem um dos momentos mais deliciosos do cinema europeu dos últimos anos. Delicioso porque é completamente incongruente, inesperado, surreal e contrário ao tom do resto do filme. A dança das quatro personagens, envolvidas em complicadas teias amorosas, ao som de uma canção pop alemã da década de 70, é aquilo que na gíria da Internet se chamaria um momento WTF. Aqui fica, para ver e rever.

Maria Braun

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Discórdias em torno de Woody

Acho que estou em minoria no que diz respeito ao último filme de Woody Allen. Não é assim tão mau – estou mais próxima, neste caso, da posição dos críticos do Expresso do que do Público – e algumas críticas têm sido bastante injustas. A questão é se os críticos acham que este é um mau filme ou se acham que é um mau filme de Woody Allen. É totalmente diferente. Eu diria que não é um mau filme, mas não é uma obra-prima de Allen. Se compararmos com outros filmes dele, é menor; se compararmos com outros filmes em exibição, é decente.
Suponho que a minha querela com a crítica tem a ver com outro facto – é que eu também estou na minoria em relação a Match Point e, portanto, não sinto que O Sonho de Cassandra seja uma desilusão a seguir àquele filme. Para ser sincera, não acho Match Point nada de especial. E sei que vou irritar a maior parte dos críticos – e sublinho aqui o masculino da palavra – porque o filme, uma espécie de Crime e Castigo na Londres contemporânea, foi estragado pela interpretação de uma certa starlet com aspirações a actriz séria (ah!), cujo nome agora me escapa. Houve um momento em que me interroguei se não estaria a ver uma peça de liceu. Esta falha ainda era mais visível graças ao brilhante elenco secundário – Brian Cox, Emily Mortimer, Penelope Wilton… Actores a sério, portanto. Por algum motivo, também, Scoop é a única longa-metragem de Allen para cinema que eu nunca vi. Mas não é só isso. Conhecendo demasiado bem a cidade de Londres, o filme soa a falso (será que toda a gente trabalha no Gherkin? Apartamento com vista para o Parlamento? A classe média-baixa a morar em Marylebone?), talvez com a excepção de pedirem 220 libras por semana por um armário.
Mas não pensem que estou aqui para destilar veneno. Afinal, apenas quero falar d’ O Sonho de Cassandra. É certo que os sotaques de McGregor e Farrell não soam bem; é verdade que Londres continua a não ser realista. Mas Manhattan também nunca o é nos filmes de Woody Allen. Este é um filme com excelentes desempenhos – Farrell dá a sua melhor interpretação até agora, McGregor é luminoso como sempre, Atwell confirma as esperanças depois da sua Cat em A Linha da Beleza, todo o elenco é notável – e com uma ideia de base bastante interessante. Allen volta ao tema da ascensão social, iniciando o filme quase como um kitchen-sink britânico, transformando-o depois numa tragédia grega sobre família, destino, consciência e morte. É previsível, sem dúvida, os diálogos são repetitivos, não é visualmente brilhante e Woody não tem ouvido para o inglês de Inglaterra. No entanto, é uma pequena história bem construída. Para além disso, ao contrário do que alguma crítica portuguesa afirma, é um filme recheado de humor negro e perverso.
Para mim, Allen é um ritual anual desde os 12 anos. Antes disso, via as obras dele em casa, enquanto filha de fanáticos de Woody, que não perdiam um filme dele e que me quiseram incutir o gosto por um dos seus realizadores preferidos. Por isso, é muito doloroso, hoje enquanto twentysomething, quando um filme de Allen não enche as medidas, como tem acontecido nos últimos anos. Contudo, apesar de saber que este não é um grande Allen, não saí da sala de cinema completamente desiludida. Acho que este é o maior elogio que posso fazer a O Sonho de Cassandra.

Maria Braun

domingo, 20 de janeiro de 2008

Lembram-se da primeira vez?


Pulp, Disco 2000


Quem se recorda de chegar da escola, em 95/96, e ligar a televisão, na esperança que a MTV ou a VH1 passassem um vídeo dos Pulp?

Maria Braun