sábado, 31 de maio de 2008

Como gostaria de ser contabilista?

Antes de tudo, peço as máximas desculpas pela minha ausência. Para felicidade dos ávidos leitores deste blogue (e, neste momento, acabei de entrar numa dimensão paralela!), regressei mas não em força. É verdade, acabei de acordar e estou exausta do número de ontem à noite. Por isso, vou limitar-me a tentar transcrever algo que uma amiga minha me contou.
“Nunca gostei que me fizessem perguntas pessoais. Porém, há uma que me petrifica, que gela o meu sangue até à aorta: Qual é a sua profissão?
A verdade é que, há uns anos atrás, tive a infeliz ideia de ser pouco prática nas minhas escolhas para o futuro e de cometer um suicídio profissional. Quando estava a preencher o boletim de candidatura à universidade, a minha esferográfica ganhou vida própria e, ao invés de escrever «Gestão» ou «Economia», gatafunhou «História». Durante quatro anos, tive o prazer (ou talvez não!) de conviver diariamente com figuras e acontecimentos que inspirariam um David Linch. Depois (oh, demência!), aprofundei a crise profissional e dediquei-me à investigação. Passo os meus dias a percorrer os ambientes insalubres das bibliotecas e arquivos de Lisboa.
Explicar isto a um leigo é sempre uma tarefa árdua, um décimo terceiro trabalho de Hércules. Vou agora reproduzir um diálogo-tipo a partir do momento em que sou questionada sobre a minha vida profissional. Acreditem, é sempre uma boa maneira de tornar longa uma conversa. Chamemos Lola Montez ao interlocutor-tipo. Aqui vai.
«Lola Montez (LM) – Então, o que é que você faz?
Eu – Sou investigadora?
LM – Da PJ?»
Este é um dos raros momentos na minha vida em que me sinto intimidante.
«Eu – Não. Licenciei-me em História e faço investigação nesta área.
LM – Que interessante! Sabe uma coisa,...»
Neste momento, a conversa pode tomar dois rumos distintos:
Hipótese A: «... eu também gosto muito de História»
Hipótese B: «... eu nunca gostei lá muito de História»
Ora bem, no caso da hipótese A, LM irá dizer que também gostaria de ter tirado o curso de História mas que não o fez (sensata criatura!). Decerto que escolherá uma época de eleição. Existe uma probabilidade de 86,4% dessa época ser «os Descobrimentos». «Ah! Como eu gosto dos Descobrimentos! Naquela época éramos grandes, tínhamos metade do mundo!». O sempre presente saudosismo (com um quê de mentalidade de Estado Novo) pelos tempos do Tratado de Tordesilhas! Então, LM debitará uma série desconexa de conhecimentos que adquiriu durante a frequência do ensino escolar. Fá-lo-á orgulhosamente, mostrando que, afinal, até sabe quase tanto como um miúdo de dez anos.
«Eu – Pois...»
No caso da hipótese B, a situação complica-se e tende a se alongar por mais umas horas. LM tentará justificar a sua falta de gosto pelo conhecimento histórico, o que deixaria qualquer Heródoto de cabelos em pé. Há uma figura omnipresente, a do «mau professor». O «mau professor» é aquele que obrigava os alunos a saberem todas as datas, dinastias, naus da armada de Vasco da Gama, freiras de D. João V, etc., etc.... O «mau professor» até fazia uso da palmatória do caso do aluno não saber quantos centímetros media Napoleão. Frequentemente, ao «mau professor» contrapõe-se o «bom professor», aquele que tentou recuperar o gosto pela História, que se esforçou por mostrar que «aquilo é mais compreender do que decorar». Porém, nem o «bom professor» salvou aquela alma.
«Eu – Pois...»
A situação complica-se quando LM é curioso e quer saber «Então, o que é que você investiga?». Neste momento, aconselho a simplicidade, ser o mais generalista possível, se for preciso, ocultar um pouco. Nunca tente ser demasiado específico, salvo se quiser lançar o incómodo no interlocutor. Porém, uma resposta como o «Aporias do número na representação egípcia de Deus como abertura hermenêutica» pode ser óptima para ouvir um suspiro de falsa compreensão «Ah...» e acabar logo com a conversa. Por outro lado, existe também a hipótese de LM querer que «troque isso por miúdos». Conclusão: é bom ter sempre à mão um relatório do projecto de trabalho em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5.
E durante toda esta conversa, eu penso: «Porque é que não sou contabilista?». É verdade meus caros, é preciso muito descaramento para se dizer a um contabilista: «Que interessante!», ou «Eu também gostava muito de ser contabilista?», ou mesmo um «Amo o POC com todas as minhas forças!». A conversa acaba logo no «Sou contabilista». É tudo tão fácil e simples... Estou farta de ser um animal exótico!”
Enfim, isto foi o que essa minha amiga me contou. Coitada, até é uma boa rapariga! Por mim, vou voltar para o meu gin e para o meu Kurt Weill. Auf Wiedersein!
Sally Bowles

quinta-feira, 29 de maio de 2008

l´amour parmi les livres

Há uns anos atrás, a Relógio d' água tinha numa das suas bancas na feira do livro uma rapariga muito gira. Sublinhe-se o gira ou então digamos, numa assentada, incrível. Ingénuo, perguntei-me se este ano, por algum acaso, estaria lá. Não, não está. É pena. Era mesmo gira, era mesmo parecida com a Kirsten Dunst.

K. Douglas

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Abril





Maria Braun

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Antecipações






Maria Braun

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Primeira canção com Lágrimas

Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

Manuel Alegre


Esta canção é, talvez, a segunda melhor canção de amizade de sempre - logo a seguir a I See a Darkness de Bonnie Prince Billy. Festejemos Abril!

K. Douglas

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Aquele Maio (3)


Maria Braun

terça-feira, 1 de abril de 2008

Saudosismos light e leitores de algibeira

Quando ando de transportes públicos tenho o exasperante (para os outros, não para mim) hábito de bisbilhotar aquilo que os meus companheiros de viagem andam a ler. É educativo. Nunca apanhei ninguém a ler Bukowski e, se apanhasse, não fugiria da pessoa em causa, muito pelo contrário (veja-se http://www.realimaginado.blogspot.com/). Já se fosse Henry Miller… Também, por aquilo que tenho visto, acho que não corro esse risco. Os leitores de curta distância parecem estar mais interessados nos malfadados jornais gratuitos. Bem vistas as coisas, não se gasta nada com eles, ajudam a passar o tempo e não exigem grande empenho intelectual, o que é óptimo para combater o tédio. No entanto, falando apenas sobre livros, os transportes públicos podem servir como um óptimo inquérito aos hábitos de leitura nacionais.
Em primeiro lugar, porque é que há tanta gente adulta a ler livros infantis? Ou será que aos 30 ou 40 anos ainda se consegue digerir literatura maniqueísta sobre magos e outros que tais? Pelo menos já não é só Rebelos Pintos e Browns de bolso. Isso já está démodé. De há uns tempos para cá parece haver uma nova obsessão – Salazar. Pelos vistos, aquela vergonha que foi os “Grandes Portugueses” ajudou a lançar a moda ditador-light. É uma boa forma de ganhar dinheiro: escrever um livro sensacionalista e pseudo-biográfico sobre uma figura que parece exercer um inexplicável fascínio sobre os portugueses. É que se fosse Hitler ou Mussolini ainda percebia. Eram figuras coloridas. Agora o triste e parco Salazar… Ainda está bem viva aquela deprimente paixão dos nossos compatriotas pelo paizinho intransigente, Salvador da Pátria, modesto e simples, que aplica a sua autoridade com mão de ferro. Veja-se quem está no palácio de Belém…
Mas é sobretudo triste chegar a uma livraria e ver banalidades sobre a vida de Salazar misturadas com livros de culinária, de auto-ajuda e os últimos best-sellers. Décadas de ditadura colocadas ao lado de receitas para o wok… Para quem quer analisar de forma séria os anos do regime autoritário em Portugal, tudo isto deve causar um absoluto desânimo. Mas enfim, Salazar sempre vai estando presente nas viagens para os subúrbios, entre o trânsito de Lisboa, entre meros curiosos e aqueles que acham que o que é necessário é outro como ele. Naqueles tempos, dizem, imagens como as da aluna do Porto não aconteceriam – e outros populismos que tais… Consequência do vácuo ideológico em que estamos mergulhados ou de uma pura e simples ignorância?
E, assim, lá vou eu, entre um ingénuo leitor do Correio da Manhã e um leitor de ocasião de um gratuito, entre sensacionalismos e saudosismos autoritários, carregando o meu DeLillo, afundada num incurável pessimismo. Porque isto não é apenas deprimente: é, no fundo, verdadeiramente perigoso.
Maria Braun

quinta-feira, 27 de março de 2008

Tudo o que não deve saber

Há dias, desfolhei um livro com um título tão amplo quanto Cultura. Tudo o que precisa saber, ou qualquer coisa assim. É uma síntese de “o essencial a saber para não parecer parvo de todo” ou de “o conhecimento necessário para uma conversa de café minimamente inteligente”, embora temas como Física Quântica e Dialéctica Hegeliana não sejam propriamente os assuntos de eleição entre uma bica e um pastel de nata. Enfim, trata-se de uma espécie de “cultura essencial em 600 páginas”, possivelmente para figurar nas mesinhas de cabeceira de socialites que, não conhecendo nem “a Quântica” nem “a Hegeliana”, querem sempre ficar bem nos salões (gosto do termo salões, muito coquete!). Porém, o livro tem um capítulo que considero deveras interessante, se não pelo conteúdo, pelo menos como proposta de reflexão. Neste, é elencada uma série de conhecimentos desnecessários, ou melhor, que podem causar série embaraço caso manifestados. Um “tudo o que não deve saber” que se resume a algumas breves achegas lógicas sobre o que nunca deve ser conhecido e, sobretudo, comunicado como o último episódio da novela da noite ou os pormenores das relações extra-maritais da nobreza europeia.
Ora bem, tal conduziu-me a um exercício de auto-análise e o resultado foi uma breve lista do que eu sei e nunca, nunca mesmo, deveria saber . Sim, breve porque há coisas que é melhor não revelar, mesmo quando nos fazemos passar por uma artista de cabaret na Alemanha dos anos 30. Cinco coisas que, com embaraço, confesso:
Sei uma boa parte (uma boa e vergonhosa parte) da letra do Taras e Manias do Marco Paulo;
Sou capaz de dizer três ou quatro títulos desse ícone da cultura norte-americana, Danielle Steel (é o que dá ler catálogos do Círculo de Leitores. Ups!... este deveria ser o ponto 3);
Li o Alquimista do Paulo Coelho (mas fique desde já aqui escrito que não gostei!)
Trauteio com frequência temas dos ABBA, dos Bee Gees (e isto faz-me lembrar um comentário de um outro blog – vide www.realimaginado.blogspot.com), do Avô Cantigas, enfim...
Sei quem foi o vencedor do primeiro Big Brother (mas não do segundo, ah!ah!ah!)
“Cobri minhas faces que morro de vergonha!”Sally Bowles

segunda-feira, 24 de março de 2008

Aquele Maio (2)


Maria Braun