domingo, 18 de abril de 2010

Apresentações confusas

Face ao aparecimento confuso de B. Parker, Maria João Seixas toma conta de mim e faz-me perguntar: "Diz-me, quem és?"

K. Douglas

sexta-feira, 16 de abril de 2010

I

Ando na rua porque não me deixam andar nos telhados
Como um gato vadio
E há a gravidade
Essa grande puta.
Se andasse nos telhados
A calçada não me feria os calos,
Nem via o Real,
Seja lá o que isso for,
Só sei que é uma tia velha
Que me beija sôfrega e pastosamente.
B. Parker

quarta-feira, 31 de março de 2010

«On a bus stop in the town, "We Rule The School", Written for everyone to see and read»



Em primeiro lugar, Sally, aqui está um vídeo para ti e para o dia de hoje. Gosto muito desta canção e acho o vídeo muito bom. No que toca ao liceu, estamos longe um do outro. A escola secundária não é um espaço que se preste a saudades. No entanto, a música safa esses anos, nomeadamente os 16, 17 anos. Por essa altura, tive a sorte de me darem a conhecer algumas coisas de que gostei bastante e que, enfim, “definiram” o que ouço até hoje. Houve um Natal em que recebi o unplugged dos Nirvana e ouvi o Grace do Jeff Buckley. Mas foi nas férias de Verão do 11º ano para o 12ª ano que me gravaram duas k7s (deixem-me escrever assim) de 90 minutos que são das melhores coisas da minha adolescência. A primeira tinha no lado A Elliott Smith – XO e no lado B Belle and Sebastian – If you’re feeling sinister (quase que poderia dizer que fui das primeiras pessoas em Portugal a ouvir os Belle and Sebastian). A segunda tinha Mercury Rev – Deserter’s Songs e algumas canções de Sketches from my sweetheart the drunk de Buckley. Claro, falta referir os Tindersticks. O disco que recebi no dia em que fiz 18 anos foi o Bryter Layter do Nick Drake – How cool is that? Can you beat it? Ah! Falta referir uma compilação que me fizeram que tinha coisas como Red House Painters, Radiohead, Neutral Milk Hotel, Blur, Yo la Tengo, Low, Joy Division, etc. Enfim, não podia ter sido melhor.

K. Douglas


segunda-feira, 29 de março de 2010

Classe de 00

Eu não sou particular adepta de efemérides mas há uma que gostaria de realçar, embora tenha um carácter meramente pessoal. Este ano faz exactamente uma década que deixei para trás os bons tempos do liceu e ingressei na idade adulta - ou numa proto-idade adulta, talvez um outro conceito mais adequado para os anos académicos.
Há aquele velho mito dos anos do liceu serem uma aproximação às chamas infernais. Eu não o corroboro minimamente. Apenas guardo boas recordações... (as más devo ter recalcado, é possível!).
E se há uma coisa que transporta de imediato aos pátios da E.S.P.A.A. é alguma música. Aconteceu-me ainda há uns minutos. Os meus vizinhos de baixo ensaiavam os primeiros acordes do "Come as you are" dos Nirvana e eis-me a vestir mentalmente a minha camisa axadrezada de flanela (o que será feito dela?)
Por isso, deixo aqui um apelo aos meus camaradas blogueiros, sim, porque eles partilham comigo esta efeméride dos dez anos de auf wiedersehen adolescência. Digam lá qual é a vossa banda sonora para os tempos do liceu. Na minha, não poderá faltar:

- "Creep", Radiohead

- "Girls and Boys", Blur

- "Wonderwall", Oasis

E fico-me por aqui porque o meu computador já crashou três vezes desde que comecei a escrever isto.
K. e Maria, é a vossa vez...
Sally Bowles

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

I don't wanna be a contra




Aqui fica o segundo single de Contra, o segundo disco dos Vampire Weekend. 

K. Douglas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O melhor dos mundos possíveis

Antes de tudo, começo este meu post com uma sugestão. Ide ver o novo filme dos Cohen, meus irmãos. A Serious Man é, como diria o K., delicioso e transborda daquele humor desconfortável, com um quê de culpa, propenso mais a esgares de lábios do que a gargalhadas sonoras, a que os dois manos já nos habituaram. Rabis, Jefferson Airplane, gato de Schrödinger, marijuana e bar mitzvah, tudo reunido no Minnesota dos anos 60. Os Cohen ter-se-ão inspirado no Livro de Job para compôr a história de um homem sério sobre o qual o mundo desaba, sendo na sua desgraça que o filme colhe a sua dose de humor.
O Livro de Job é, possivelmente, um dos meus livros bíblicos de eleição e julgo que muitos partilharão dessa minha preferência. Além do interesse literário e da beleza poética, a minha atenção recai no facto deste ser o exemplo mais marcante em toda a Bíblia do senso de humor tipicamente judaico.
Senão, recordemos: Job vivia feliz na sua terrinha, com as suas ovelhas, bois, camelos e burras, com os seus sete filhos e três filhas [sim, e era feliz apesar disso... outros tempos!]. Além do mais, Job era um tipo piedoso, que sacrificava animaizinhos a Deus e tudo. Mas, como em tudo na vida, lá em cima a história era outra. Deus e Satanás encontram-se:
Deus - Donde vens agora?
Satanás - Fui dar umas voltas pela terra.
D. - Não reparaste no meu servo Job? Não há outro como ele no mundo! É um homem bom e honesto, muito religioso e não faz nada de mal!
S. - Achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados? Blá... blá... blá... Experimenta levantar a mão contra aquilo que é seu e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na tua frente.
D. - Tudo o que lhe pertence está à tua disposição, mas nele mesmo não podes tocar.
O resto da história já se sabe. Todas as desgraças desabam sobre o pobre Job e ele limita-se a lamentar. Um belíssimo lamento, admitemos. O final é feliz, como não podia deixar de ser. Ou não fosse este o melhor dos mundos possíveis, como diria Pangloss.
Deus ri. E tem um humor muito negro.
Sally Bowles

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quando o telefone toca...

O meu avô nunca quis ter telefone em casa. E os filhos bem insistiam, zelosos pelos seus velhos. Mas nisso, ele era irredutível. Por telefone, as notícias ruins chegam mais rápido, dizia. Passados muitos anos, tenho de dar razão ao avô - os três, quatro dias que a carta demorava a chegar eram dias roubados à desgraça.
Não é esse o motivo porque não gosto de telefones. Embora admita que poucas coisas são mais perturbadoras do que um telefonema a meio da madrugada. Cheira a tragédia a cada toque.
Há algo de impessoal quando uma voz não é acompanhada por um corpo. Ouvimos alguém do outro lado da linha e tentamos imaginar a expressão que acompanha cada frase, tentamos interpretar a entoação e o som de fundo. Já repararam que numa chamada telefónica não há lugar para silêncios. Cada segundo que demoramos a responder é acompanhado por um "estás a ouvir?" do outro lado. Somos obrigados a uma rapidez de resposta que vai contra a nossa necessidade básica de ponderação. O diálogo torna-se pobre. Pelo menos para mim, que não sou particularmente dotada no campo da oratória e resumo as minhas deixas a um "Estou bem", "Choveu" e "Novidades?"
Essa é uma das razões porque, à falta do tete-a-tete, privilegio a comunicação escrita. O e-mail é uma boa opção e socialmente bem aceite visto que a velhinha carta tornou-se num objecto aparentemente inadequado ao ritmo do nosso quotidiano e à tirânica velocidade de circulação da informação.
Contudo, continuo a gostar de cartas, desde que não sejam da EDP, da EPAL ou de outra sigla qualquer. Não que as escreva com frequência. Bem pelo contrário. Mas existe um prazer secreto em abrir um envelope fechado a saliva (e há algo de mais pessoal do que isso?) e encontrar uma folha de papel dobrada em três com perfeição e arte. Desdobro-a e leio "Querida Sally". E espero pela boa nova na próxima linha.
Sally Bowles

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Go David! You're the best!

I’d do the Corrs’ drummer, the lead singer and that one who plays the violin

Há cerca de um ano atrás encontrei consolo em David Brent (salvo seja). A história não merece ser contada, até porque este não é o espaço para ela. No entanto, há que fazer o elogio dessa magnífica categoria que responde pelo nome de necessidade. É ela que nos faz conviver horas e horas com pessoas que não interessam nem ao menino Jesus. É por isto que as palavras de Tim, no final da série, são extraordinárias (conseguem um misto de redenção e de resignação) : The people you work with are just people you were thrown together with. Y'know, you don't know them, it wasn't your choice. And yet you spend more time with them thanyou do your friends or your family. But probably all you've got in common is the fact that you walk round on the same bit of carpet for eight hours a day. And so, obviously, when someone comes in who you have a connection with - yeah, and Dawn was a ray of sunshine in my life - it can mean a lot. But if I'm really being honest, I never really thought it would have a happy ending. I don't know what a happy ending is. Life isn't about endings, is it? It's a series of moments. And um, if you turn the camera off, it's not an ending is it? I'm still here. My life is not over. Come back here in ten years. See how I'm doing then. 'Cause I could be married with children, you don't know. Life just goes on.

E porque a vida continua, o bla di, o bla da, aqui fica referenciado um dos meus momentos preferidos do Office inglês (sim, Maria, tinhas toda a razão): quando David diz como trataria da saúde (!) às meninas dos The Corrs. Deve ser dos mais óbvios, but I really don't care. Além do grande momento de David - veja-se como ele tenta reverter a situação constrangedora - , gosto particularmente do momento em que Tim parece olhar directamente para nós. Brilhante.
K. Douglas

sábado, 23 de janeiro de 2010

Desculpe, foi engano.


Grace Kelly, Dial M for Murder, 1954.

Em conversa com a Sally, fiquei a saber que tínhamos visto no mesmo dia um filme com Grace Kelly, ambos de Hitchcock: Dial M for Murder e Rear Window, ambos de 1954 (há demasiados "ambos"nesta frase). Achei esta coincidência engraçada e, agora, depois de um jantar tipicamente alentejano - migas com carne, acompanhadas com café - decidi escrever qualquer coisa sobre o assunto. Começo pelas louras. Para muitos, Grace Kelly é a ultimate blonde de Hitchcock. Eu tendo a concordar, embora tenha um ""fracão"" por Ingrid Bergman em Notorious (aquele beijo) e por Tippi Hedren em Os Pássaros. Mas não esqueço Grace Kelly e a sua saia a roçar pelos móveis do quarto de James Stewart. Tal erotismo só se encontra noutros filmes de Hithcock: o aludido beijo entre Ingrid Bergman e Cary Grant, as sequências iniciais de Psycho ou as perseguições de Stewart a Kim Novak pelas ruas de S. Francisco em Vertigo, o meu filme preferido de Hitchcock (embora hoje compreenda um pouco mais a Maria, quando ela apontava Psycho como o seu preferido).

A Sally diz que ninguém sobe com tanta elegância umas escadas como Grace Kelly. É capaz.. Em Chamada para a morte - logo nos primeiros 5 minutos - já ninguém a esquece. Quando recebe o amante, Grace deixa de usar a roupa casual, ainda que elegante e sofisticada, do quotidiano com o marido e enverga um vestido vermelho. Estes pormenores são, como se sabe, importantes no cinema de Hitchcock. O caso mais conhecido foi a insistência para que Kim Novak usasse cinzento em Vertigo. A actriz não queria, o cinzento não a favorecia, mas as instruções dadas foram rigorosas: qualquer tom de cinzento, desde que seja cinzento.. A cor, aliada ao seu rosto e aos seus cabelos, criavam um efeito débil que a fariam aparecer como que saída do nevoeiro de S. Francisco. Assim, e voltando a Kelly, o vestido vermelho, revela a paixão  e o sexo inexistentes no seu casamento.

Há duas coisas que me fizeram gostar bastante deste filme. Em primeiro lugar é o filme que mais se aproxima do registo d' A Corda, precisamente pela sua teatralidade (é certo que o filme é a adaptação da peça de teatro com o mesmo nome) e pelo facto de acontecer quase exclusivamente em interiores. Mas ao contrário d' A Corda, que não tinha edição nenhuma, Chamada para a morte, oferece ao espectador belos planos, reconhecendo este, de imediato, o olho de Hitchcock. Em segundo lugar: o vilão. É talvez o meu preferido. A interpretação de Ray Milland é muito boa. Trata-se de um homem de uma posição social elevada, descontraído, amistoso - um anfitrião perfeito para fazer a melhor sala - e que planeia meticulosamente a morte da sua mulher. É precisamente aqui que está o seu interesse. Não se trata de um homem com dois lados, com uma fachada. Ao contar o seu plano ao executante, não há uma alteração do seu registo afável. O seu controlo quase que é brincalhão. Mas quando Kelly atende o telefone, ele devia ter dito: "desculpe, foi engano".

K. Douglas

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os meus 10 filmes dos anos 00

Julianne Moore, Far from Heaven, 2002.


É verdade, o século começou às 00h do dia 1 de Janeiro de 2001. Em todo o caso, os anos 00 chegaram ao fim. Não me importava nada de ter o talento de Douglas Coupland para descrever uma época, para cristalizar os acontecimentos e adensá-los nos pormenores do quotidiano, mesclando as engenhocas tecnológicas com a aura dos sítios e com a intimidade das personagens (este é o toque de mestre de Coupland, penso). Mas não tenho. O que dizer dos anos 00? Pensei minimamente nesta pergunta e ocorreram-me algumas coisas, mas achei que a coisa acertada e justa seria recorrer àquela ideia de Chesterton (bem sei, bem sei, mas deixemos o seu insuportável reacionarismo e sublinhemos o seu humor genial - as vacas económicas não deixam de o afirmar) que diz que aquilo que nos molda e toca verdadeiramente é o que nos acontece na nossa vida - a nossa relação directa com as coisas e como isso nos afecta. Não se pense que isto é um eufemismo para expressar um estado de egoísmo, não é. Pois bem, uma das melhores coisas destes anos foram os filmes. Não apenas aqueles que vi em sala, os quais apontarei adiante, mas também os da cinemateca, as sessões quase caseiras do Museu República e Resistência e, mais que tudo, as sessões caseiras, nas quais se incluem várias ocasiões com a Maria e a Sally. Espalhados por aí, estão uns quantos filmes de que gosto muito.

A minha lista, como é óbvio, reflecte os meus filmes preferidos. Não atendi a nenhum critério específico. Há oito títulos que foram anotados quase de rajada e dois que surgiram depois. Um deles é Saraband. Vale sempre a pena uma pessoa perder-se no Alvaláxia para ver um grande filme. O prólogo do filme, com as aproximações ao rosto de Liv Ullmman, conquistou-me de imediato. Anote-se também que torço a cara a esta classificação, mas forcei-me a fazê-la.

10 - Dogville, Lars Von Trier, 2003.

9 - Donnie Darko, Richard Kelly, 2001.

8 - Brokeback Moutain, Ang Lee, 2005.

7 - In The Mood for Love, Wang Kar Way , 2000.

6 - Saraband, Ingmar Bergman, 2003.

5 - The eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry, 2004.

4 - Lost in Translation, Sofia Coppola, 2003.

3- Mulholland Drive, David Lynch, 2001.

2- Kill Bill, Quentin Tarantino, 2003-04.

1- Far from Heaven, Todd Haynes, 2002.

Fiquei quieto a olhar para a lista, à procura de qualquer coisa objectiva para a comentar, mas só consigo pensar que são grandes filmes. Sim, há outros, sim, há um ou dois que podem ser discutíveis. Sim, direi coisas quando sair a nossa lista final.


K. Douglas